NOTÍCIA

Milhares de carros a diesel da Volkswagen são tirados de circulação e colocados em pátios nos EUA

 
Desde 2009 o debate sobre a liberação do uso do diesel para carros de passeio voltou à pauta ao menos duas vezes por iniciativa de deputados do Congresso Nacional - e também por parte de empresas interessadas na volta do combustível para veículos leves. A partir de 1976, o uso do combustível está restrito a utilitários com capacidade de carga a partir de uma tonelada - como picapes - ou que ofereçam a combinação de tração nas quatro rodas e reduzida, o que beneficia inclusive modelos de luxo, como SUVs e crossovers.
 
A “proibição” do diesel veio na esteira da crise do petróleo na década de 1970, quando os países produtores aumentaram em até quatro vezes o preço do óleo cru. No Brasil, dessa crise nasceu o Programa do Álcool e a prioridade do uso do diesel para transporte de carga e passageiros. No mundo, a poluição começou a se tornar um tema de relevância crescente, e a legislação com relação às emissões de poluentes tornou-se progressivamente mais rigorosa.
 
Apesar de mais caros, motores a diesel são mais robustos e duráveis, e tendem a ser mais econômicos e adequados ao trabalho pesado por conta do alto torque. Mas vibram mais, e emitem material particulado e óxidos de nitrogênio (NOx), esse o principal vilão quando comparado à poluição resultante da queima de outros combustíveis. Até recentemente, sofisticados recursos tecnológicos nos carros deram conta de reduzir os danos provocados pelos poluentes.
 
O encanto começou a cair em setembro de 2015, quando a Agência de Proteção Ambiental dos EUA descobriu um esquema que permitia à Volkswagen fraudar os resultados dos testes de emissões de poluentes de seus veículos. Audi, Bosch, FCA, Mercedes, Renault e Suzuki, entre outras empresas, acabaram envolvidos no escândalo que implicou recall de milhões de automóveis, bilhões de dólares em multas, dezenas de constrangidos pedidos de desculpas e até prisões. Se compensar as emissões nocivas com tecnologia a fim de atender à legislação foi ficando muito caro, a conta ficou ainda mais alta com o que ficou conhecido como Dieselgate.
 
O vexame só piorou quando torrou-se público que dez macacos e 25 jovens participaram de testes em que foram expostos à emissão de motores diesel para que os danos à saúde fossem avaliados. A “experiência”, feita em 2014 nos Estados Unidos, era de conhecimento de executivos de ao menos três montadoras alemãs.
 
A prefeitura de Paris, que vem adotando medidas de restrição a veículos nas áreas mais centrais, em outubro anunciou a intenção de proibir a circulação de carros a diesel até 2024 - e a gasolina até 2030. O Reino Unidos anunciou a mesma decisão para 2040. Na primeira semana de março, a Toyota avisou que neste ano deixará de vender veículos equipados com motor a diesel na Europa. 
 
Na Alemanha, terra natal dos pais de Rudolf Diesel - ele mesmo, o inventor do motor -, a justiça de Leipzig autorizou restrições à circulação de carros movidos pelo combustível, medida que atinge também as cidades de Stuttgart e Dusseldorf.
 
A Volkswagen está recomprando e recolhendo centenas de milhares de veículos nos EUA em 37 localidades do país, como o gigantesco pátio de Victorville, na Califórnia. Pivô do Dieselgate, a empresa anuncia para 2030 uma versão elétrica para cada um de seus 300 modelos.
 
Exceção no mundo, o Brasil é tido como o único país a restringir o uso do diesel em carros leves. Como o proibido tem seu fascínio e as pessoas não gostam de ser privadas do direito de escolher, notícias sobre liberação ou não do combustível são invariavelmente acompanhadas de comentários críticos à decisão do governo. Mas, ao menos nesse assunto, acusações indiscriminadas sobre burrice administrativa e corrupção podem não ser justas.

Fonte: revistaautoesporte.globo.com